Sobre qualidade de vida

Não sou daqui.

A bem da verdade é que nasci nesta cidade, bem ali no Hospital Evangélico, mas passei toda a infância “ciganeando” pelo sudoeste do Paraná já que o meu pai nunca conseguiu ficar muito tempo em um mesmo lugar.

Ir embora, portanto, é sempre uma constante em meu pensamento. Mas não é disso que quero falar.

Dizia, enfim, que não sou daqui. Quando decidi sair do sítio lá pras bandas de Coronel Vivida, cidadezinha pacata, mas muy hermosa, e vir para a “cidade grande”, não havia muito o que eu pudesse dizer sobre a capital.

Sabia que existiam uns esquisitos pontos de ônibus chamados “tubo”.

Até aí, tudo bem, cada um que coloque o nome que lhe aprouver na sua parada de ônibus.

Mas o ponto de ônibus ser redondo?

Eu me quedava imaginado como as pessoas ficavam em pé dentro dessas aberrações da natureza, questão boba, aliás.

Interessante é o fato de que, na época, o que me intrigava eram os pontos de ônibus redondos.

Não me chamava muito a atenção os cartões postais, as óperas de arames, os jardins botânicos.

Nem mesmo a qualidade de vida superior que a cidade oferecia foi determinante para a minha escolha.

Queria mesmo era morar na cidade grande e as aventuras que isso representava.

Quando aqui cheguei não achei tão superior no quesito qualidade: o ar é poluído, tem muitos carros e as ruas são sujinhas, sim. Então você me diz: “É a capital mais limpa do país e onde há planejamento do transporte público”.

Elementar, meu caro. Eu não conhecia nenhuma outra capital para comparar e a cidade era bem mais suja do que Coronel Vivida…

Já, sobre os problemas do transporte público, nem me atrevo a falar.

O fato é que não vim para Curitiba por causa da qualidade de vida.

Mas, penso comigo que muitos outros a escolheram por isso.

Não quero dizer que é ruim a migração de pessoas de todo os lugares do Brasil para cá em busca de um ideal de vida em uma cidade que, apesar, de metrópole, é bem planejada e na qual, em tese, as coisas funcionam.

Longe disso, eu também sou migrante.

Todavia, será que o fato de tantas pessoas terem vindo em busca da qualidade de vida não foi determinante para que já não seja tão qualidade assim nestes anos escuros de engarrafamentos monstros, stress no trânsito e ônibus super lotados?

Fica a dúvida.

Por Vanda Moraes

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